Madonna: Celebração da Voz


É possível a partir da semana passada escutar em lançamento oficial uma das vozes que têm sido a banda sonora das últimas três décadas: a de Madonna. Com Celebration, entramos numa viagem onde a mundo da música, das polémicas, dos paparazzi e dos concertos mudou ao som da sua ambição, da sua força, mas também, e porque muitas vezes é considerada secundária, a sua voz. Não é apenas na imagem e na atitude que Madonna se transfigura com cada projecto, a sua voz é também ela alvo de reinvenção. E isso é altamente notado nesta compilação. Foi assim que começou a sua carreira a solo, em 1982, depois de vários anos em bandas punk-rock como baterista(!), guitarrista e só por fim como vocalista, a cantar pela primeira vez Everybody:



Com o sucesso crescente nas pistas de dança a cargo de Holiday, a popularidade da sua voz começou a ser notada pelo público em geral com Borderline, o seu primeiro Top10 nos EUA, que se fixou na sua imagem rebelde, poderosa e sexual. A voz, essa, deixou-se levar ao extremo em 1984 e foi comparada a uma Minnie Mouse on helium em temas como Like A Virgin e Material Girl. Já nos concertos da Like A Virgin Tour assim era com Dress You Up:



Quando a crítica em geral jurava a pés juntos que Madonna não passava do flavour of the month e que a sua suposta falta de talento iria fazê-la sucumbir, a sua voz abrilhantou-se das melhores melodias pop que o mundo já conheceu com o álbum True Blue de 1986. Com um registo mais maduro apresenta Live To Tell e os contagiantes Papa Don't Preach, La Isla Bonita e este Open Your Heart:


Depois do sucesso da Who's That Girl Tour, foi em 1989 que Madonna conseguiu pela primeira vez ganhar a aclamação crítica e numa das transformações mais geniais do mundo da música, a sua voz cristalina dá-nos a conhecer, lado-a-lado com a polémica constante, Like A Prayer:


Depois de Express Yourself e do singelo Cherish, Madonna iria levar mais uma vez a sua voz a mundos alternos nunca antes pisados por uma artista deste calibre. Se primeiro inspirou-se nas décadas de 1940 e 1950 para um álbum que nos ofereceu o épico Vogue. Já a seguir a palavra-chave foi só uma: sexo. Rodeada de gemidos sensuais, suspiros provocantes e sussurros ofegantes, a sua voz leva-nos a fantasias proibidas e beijos voluptuosos em Justify My Love de 1990. Sem nunca esquecer as melodias, a sua voz explora por completo esse submundo num dos álbuns mais odiados da história, Erotica de 1992:



Pese embora a polémica, os protestos da altura e o insucesso relativo, este álbum é hoje considerado um dos marcos da década de 1990. A sua voz seguiu caminho. E começou a explorar pela primeira vez o som da electrónica e do R'n'B em 1994 no álbum que nos trouxe Secret:


Take A Bow do mesmo projecto conseguiu ser o mais prolongado número 1 nas tabelas dos EUA (sete semanas). Depois de vários anos afastada dos álbuns de originais, a sua voz ganhou experiências que a levaram a patamares nunca alcançados, com treinos e projectos que a levaram ao limite. Após essa espera muitos julgaram que Madonna nunca mais viria a ter a influencia que teve na primeira década da sua carreira. Mais uma vez, ela enganou-os a todos. Em 1998 é lançado o que é hoje considerado o seu melhor trabalho. Irreconhecível, a sua voz embelezou-se de uma produção electrónica sublime que inspirou todo o mundo pop nos anos que se seguiram. E tudo começou com Frozen:



Ray Of Light conseguiu assim tornar-se um dos seus maiores e aclamados sucessos. Com uma passagem descontraída por Beautiful Stranger, a sua voz iria ter uma das maiores reviravoltas de toda a sua carreira em 2000 com o uso do vocoder no hino Music:


Transfigurada a voz, esta passeou-se por mundos paralelos à pop e apresentou-os a todos nós. Don't Tell Me e Die Another Day cimentaram o seu novo estilo de inspiração alternativa, sem nunca esquecer, as melodias que lhe correm no sangue [ou direi antes na voz] desde o seu início. Em 2003 Madonna abre uma nova etapa do seu trabalho. Levando à co-produção francesa o tema da fama e da guerra política em termos visuais. Hollywood assim é:



No mesmo ano em que teve início a segunda guerra no Iraque, Madonna foi crucificada nos EUA e viu-se pela primeira vez na sua carreira obrigada a retirar o seu vídeo do primeiro single depois de várias ameaças. Tanto a canção como o vídeo não constam de Celebration. E Madonna seguiu. E a sua voz também. E ambas provaram ao mundo mais uma vez o poder de reinvenção. Inspiradas na disco da década de 1970, trouxeram ao mundo um dos seus maiores sucessos, Hung Up:


O sucesso prolongou-se com Sorry mas Madonna não se ficou por aí. Depois de uma das digressões de maior sucesso na história com a Confessions Tour, a voz procurou recuperar antigas sonoridades modernizando-as aos tempos actuais com inspiração R'n'B e pop de 1980. Apesar da atenção dada às suas colaborações em 4 Minutes, Madonna cimenta a sua voz em melodias que podiam muito bem ter estado nos primeiros álbuns. Miles Away surge em Celebration de forma algo inesperada dado que não é considerado no ocidente um tema-chave do vastíssimo reportório de Madonna. No entanto, após a canção ter sido usada no genérico da série mais vista no Japão no ano passado, esta tornou-se um clássico por terras asiáticas. Curiosamente, e pese o relativo desconhecimento da faixa, foi também um dos momentos altos da Sticky & Sweet Tour aqui bem representada:



Celebration surge-nos em vários formatos. Versão 1 e 2 CD's (18 e 38 faixas, respectivamente) e versão DVD com a quase totalidade dos seus emblemáticos vídeos. É de notar que até a versão de Celebration de duplo-disco deixa alguns clássicos para trás, em especial as baladas de Madonna, dado que a atenção foi dada quase exclusivamente aos temas mais energéticos do seu catálogo. Um dia talvez surja um best-of triplo com todos os hit singles. Até lá podemos unir este Celebration com Something To Remember, a compilação das suas baladas até meados da década de 1990 e onde se nota também o percurso que esta voz (limitada, dizem alguns) tomou.

É raro surgirem artistas com este nível de qualidade, sucesso, inteligência, entrega e projecção. Há tão poucos, que me arrisco a dizer que todos seriam contados pelos dedos de uma única mão. E Madonna, essa, será certamente o do meio!

*xuac*

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Publicada porPedro José  

1 comentários:

Luy disse... 12/10/09, 16:41  

Grande pequeno resumo :p

A Madonna há-de ser sempre ser uma artista incompreendida para muita gente.

Mas como ela disse no seu discurso de homenagem ao Michael Jackson na MTV "no final, infelizmente, somos todos humanos". Por mais mítico que um artista seja, ele sempre acima de tudo é um ser humano mortal. E ela, felizmente, tem consciência disso. Pelo que ela utiliza a sua criatividade não só com a preocupação em evoluir profissionalmente, mas também como como ser humano e por sua vez passar essa inspiração para o público.

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